Mudos Fogos de Artifícios

Ouça se puder o grito que ultrapassa essas letras.
Andei em direção ao imaginável irreal. Parei à beira do caminho tentando observá-lo. Nada.
Estava quente e eu retomei à direção da ilusão.

São sonhos meus, apenas isso. Sonhos tão irreais. Talvez não. Tenho para mim que a irrealidade está na forma como busco a realização e não na esperança de vivenciá-la.
Eu sei. Não consegues ouvir. Nem eu reconheço com prescisão o sonido das letras, do âmago solitário. É mudo também: fala-me numa linguagem singular. Código que desejaria passar de mim e não mais tentar decifrá-lo.

Mas cabe a mim, somente a mim, reconhecer sua senha: Fôgos e Fogos. É assim. Parecem semelhantes as palavras, não as são. Muda tudo, mudo. E eu tenho cambiado muito com apenas um acento em meu íntimo. Não há borracha que possa apagar o que por si só insiste em permancer como fora criado. Sou como mudos fogos de artifícios. Emano luz, sim, mas não posso dizer a fonte da iluminação, não posso emitir o verdadeiro som.

Minha alegria se assemelha a esses fogos. Andando andei e encontrei algumas possíveis realizações, mas quando as contemplei de perto, quando meus passos se aproximaram de suas faces, vi luz mas não escutei enxergando o verdadeiro som: é preciso ouvri-me primeiro.
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Imagem: flickr.com

Nudez Enfeitada

Eu sei. Falto-me e busco a completude em lugar vago, incompleto. O lugar ou o íntimo?
Há lacunas em mim. Não entrego o texto quando confesso as lacunas, não.
A escrita é subjetiva. Não busque nela as respostas para suas indagações. Não posso falar.
Por isso, permuto razão e emoção enquanto minha pena é molhada em vivências pesadas.
Gostaria de minutar com a primeira forma, é mais trabalhosa porém não desperta todos os meus instintos. Não sei se consigo.
Há uma voz em mim que insiste em sair e eu persisto em abafá-la.

Convidaram-me à festa, eu fui. Estive lá como convidado de honra... Apresentaram-me um programa impecável, mudança de vida, e quando expus as minhas lacunas, as lacunas, viraram-me o rosto. Permaneci no meu lugar, lá, só que esqueceram meu nome com o passar das horas. São perfeitos, igualmente o programa.

Desde então tenho me apresentado em suas reuniões com minha nudez enfeitada.
Dispo-me vestindo algo não meu. Podes ver?
O sorriso sem alegria que se impregnou em meu semblante.
O levantar dos olhos para tentar segurar as lágrimas que fluem naturalmente.
O reger sem fluidos de convicção de fé.
Consegues ver?
É a incompletude. É o falso sobrepondo o verdadeiro. É o tempo sobrepondo a razão de ser, do ser. É o eu sem o mim.
Aprisiono-me em paradigmas, dogmas que não coincidem com minha alma.
Visto-me com vestes lindas mas não do meu corpo.
Habituei-me até com quem não sou. Sou sem ser no lugar íntimo.
A festa acaba? Sim, acaba?
Não consigo usar essas roupas, é melhor enfeitar minha nudez.
Imagem: Flickr.com